Em Pedaços8 min read

– A senhora faz mais alguma coisa profissionalmente?

– Eu era mãe.

Diálogo entre o delegado e Katja.

Fatih Akin, diretor do longa, é alemão de origem turca, ficou internacionalmente conhecido por seu filme mais premiado, “Contra A Parede”. Em 2017, trouxe “Em Pedaços”, estrelado por Diane Kruger atriz alemã que faz seu primeiro trabalho em língua nativa. Anteriormente Diane participou de “Tróia” e “Bastardos Inglórios”.

  • Título original: Aus Dem Nichts
  • Data de lançamento: 15 de março de 2018 (Brasil)
  • Diretor: Fatih Akin
  • Diretor de Fotografia: Rainer Klausmann
  • Elenco: Numan Acar, Adam Bousdoukos, Diane Kruger
  • Sinopse: Após cumprir pena por tráfico de drogas, o turco Nuri Sekerci leva uma vida amorosa e tranquila com a esposa Katja Sekerci e o filho Rocco na Alemanha. Certo dia, ele e o menino estão no escritório e morrem vítimas de uma explosão criminosa, tragédia que deixa Katja arrasada. Ela batalha na justiça pela punição dos culpados, um casal neonazista, e, insatisfeita com o desenrolar do caso, decide pela vingança com as próprias mãos.

Separado em 3 atos — Família, Justiça e Mar — “Em Pedaços” abre suas portas com cenas de um casamento na prisão e a partir daqui já fora da rotina e da experiência usual do cinema, visto que são feitas de câmera de celular. Muita movimentação e pouca estabilidade já nos denunciam que teremos tempos turbulentos a vista. Ali somos apresentados a Nuri Sekerci que está cumprindo pena por tráfico de drogas e à Katja que anseia pela liberdade do parceiro. A impressão que temos é que ambos estão esperançosos.

Saindo da prisão, Nuri passa a levar uma vida normal onde possui um escritório de imigração. Temos o retrato de uma família feliz e próspera.

Mais tarde ocorre uma explosão no bairro do escritório de Nuri e a cena quando Katja chega ao local e vislumbra a possibilidade de ter perdido sua família é simplesmente chocante e emocionante: ela é jogada no chão e contida por policiais. Aqui temos a presença de uma câmera no mesmo nível de Kruger, estática no chão.

Cores e Fotografia

A direção de Fotografia ficou sob a responsabilidade de Rainer Klaussman, que o faz de forma intensa e adequada a cada uma das etapas, porém sem se perder no que é a prioridade: a figura central de Katja.

Em seguida, assistimos cenas do luto de Katja que, apesar de cenas frias, são muito bonitas, retratadas sempre a partir de um incômodo close e, na maior parte do tempo, ela está sozinha no quadro. Foi uma maneira inteligente de nos conectarmos com seu sofrimento e sentirmos sua solidão diante da perda da família. Uma paleta de cores fria, baseada no azul, cinza e preto e na iluminação nebulosa da noite é o que temos para o primeiro ato, há também um quê de sujo e sombrio. Me parece algo lógico, mas também não vejo problemas.

“Eu perdi a minha família. E vocês querem tirá-la de mim mais uma vez.”

Por exemplo, nesta cena abaixo, temos a sombra da chuva estampada no rosto de Katja. De fato, durante toda o primeiro ato, temos muita chuva e uma recorrente sensação de molhado. Vejo como uma clara representação do luto da protagonista, a impressão é que ela está mergulhada em pranto.

O mesmo ocorre na cena da banheira, temos a sensação de molhado e que ela deseja morrer de tristeza, afogada em lágrimas. A posição de cima pra baixo, mostra o quanto Katja está deprimida e perdida, sem saber como lidar com a perda, tomando decisões extremas e inconsequentes a todo o tempo.

Cena fortíssima

Cessada a chuva, o segundo ato vem marcado pelo julgamento e por uma série de sobreposições de imagem, enquadramentos bem posicionados e um olhar vidrado de Diane Kruger, mostrando o porquê de ter ganhado um prêmio de melhor atriz no festival de Cannes em 2017 por esta interpretação.

Tendo em vista que as cenas se passam num tribunal, ambiente padrão em todo o mundo, temos aqui uma paleta de cores mais clara, é tudo mais limpo, mais nítido e não há dinâmica de elenco pois todos estão e devem estar sentados, a prioridade são seus diálogos. Dessa forma, percebemos menos movimentação por parte da câmera.

Passado o julgamento, Katja vai para Grécia, cenário da terceira e última parte do filme. Aqui há a presença de cores mais quentes, mais vivas, mas nem tanto como um comercial de agência de turismo. Sob um ponto de vista de cores, este é momento mais confortável da película, o que não quer dizer que seja a hora de relaxar! 🤔😉

Ela está sempre sozinha no quadro

A natureza é muito importante na terceira parte: as nuvens, o vento, os campos e o mar. Existem lindos travellings e cenas muito sensíveis, poéticas, com um belo olhar para a dor de uma mulher que simplesmente não consegue suportar o que sente. Foram usadas lentes Panavision dos anos 70, pois segundo o colorista Ronney Afortu, elas eram as mais bonitas em termos de filmagem das paisagens.

Crítica

É um drama cujo roteiro não traz nada de exatamente original, mas é muito bem executado. Gostei da forma como a Fotografia foi apresentada, existe uma experiência visual interessante para nos levar pra perto dos sentimentos de Katja, apesar de também não ter nada de inovador.
O filme é intenso em suas emoções, mas no fim, tem pausas para suavidade. Acredito que pode nos trazer uma reflexão acerca de preconceitos, xenofobia, do senso de justiça e até mesmo sobre o conceito de família.

Em Pedaços vai ao ar no Telecine Cult, nesse sábado, 24-nov, às 22h. Recomendo! Fui assistir no cinema, na mesma semana em que estreou este ano e valeu o ingresso que paguei. Foi uma meia entrada! 🎦💵

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